A lágrima é uma importante barreira de proteção do olho. Além da função protetora, a lágrima, também conhecida como filme lacrimal, proporciona uma superfície lisa e homogênea para que possamos ter uma visão de boa qualidade e confortável. A lágrima também tem função de lavar e limpar a superfície dos olhos. Para desempenhar suas funções, a lágrima precisa ser estável e em quantidade adequada.
O filme lacrimal não é composto só por água. Também contém elementos bactericidas, anticorpos, fatores de crescimento que defendem a superfície dos olhos. E para que a lágrima se mantenha na superfície do olho são imprescindíveis outros componentes: uma fina camada de gordura (produzida pelas glândulas meibomianas) cuja função é evitar a evaporação da lágrima, e a mucina (produzida por células que estão na superfície da conjuntiva) que confere a viscosidade e aderência da lágrima na superfície ocular (FIG.1).1, 2 Quando falamos em olho seco não é só uma questão de quantidade de lágrima mas, sobretudo, da qualidade e do equilíbrio dos diferentes componentes do filme lacrimal. A falta de lubrificação adequada pode ter impacto relevante na saúde dos olhos e na qualidade de vida das pessoas.2,3
Nos dias de hoje olho seco é um problema muito frequente.4 Isso porque é uma doença decorrente de múltiplos fatores, com sintomas variáveis e de intensidade também variável. Tornou-se um problema de saúde pública uma vez que o desconforto ocular, fadiga visual e até distúrbios na qualidade da visão podem ser tão importantes a ponto de interferir nas atividades diárias.2,3
O olho seco pode ser consequência de uma deficiência na produção do filme lacrimal ou da sua evaporação excessiva. E frequentemente há combinação das duas modalidades.5 As causas de redução na produção da lágrima são: doenças auto-imunes que agridem a glândula lacrimal (síndrome de Sjögren), envelhecimento, redução dos níveis hormonais (andrógenos), doenças que agridem a conjuntiva (conjuntivites cicatriciais, queimaduras e alergias oculares), cirurgias na córnea (cirurgia refrativa, transplante de córnea, cirurgia de catarata) e doenças que reduzem a sensibilidade da córnea, como herpes ocular e diabetes. Também várias medicações de uso sistêmico, incluindo anti-histamínicos (anti-alérgicos), beta-bloqueadores (anti-hipertensivo), anti-espasmódicos, diuréticos, antidepressivos e psicotrópicos podem causar olho seco por bloquear o reflexo secretor da glândula lacrimal.
Dentre as principais causas que aumentam a evaporação da lágrima está a disfunção das glândulas meibomianas, que são estruturas localizadas ao longo das pálpebras e produzem a camada de gordura da lágrima. Esta situação ocorre nos pacientes que têm blefarite (inflamação da pálpebra), muito frequente na acne rosácea e dermatite (atópica, seborreica). A disfunção das glândulas meibomianas também ocorre pelo envelhecimento e pelo uso de medicações para tratamento da acne (isotretinoina). Condições que aumentam a exposição dos olhos também favorecem maior evaporação da lágrima: deformidades das pápebras, exoftalmo pela doença de Graves, paralisia facial e procedimentos estéticos palpebrais. Na doença de Parkinson a diminuição da freqüência do piscar resulta na evaporação excessiva da lágrima. O uso de lentes de contato e colírios contendo conservantes como o cloreto de benzalcônio modificam a estrutura do filme lacrimal e favorecem a perda da estabilidade da lágrima e a evaporação excessiva.
Nos dias de hoje, os fatores externos que têm um impacto em todos os indivíduos, independente da faixa etária e de doenças de base, são aqueles relacionados à evaporação excessiva da lágrima. Esses fatores externos são ambientais como baixa umidade do ar e as altas temperaturas devido às mudanças climáticas, uso excessivo de ar condicionado, poluição do ar e fatores que causam mudanças comportamentais como uso de dispositivos eletrônicos como computadores, mas principalmente celulares.6 Nas condições de atenção visual prolongada há uma redução no piscamento com aumento da evaporação da lágrima.
Para o diagnóstico correto e abordagem adequada do olho seco sempre procurar a orientação do médico oftalmologista.
Referências Bibliográficas
- Willcox MDP, Argüeso P, Georgiev GA, Holopainen JM, et al. TFOS DEWS II Tear Film Report. Ocul Surf. 2017;15:366-403.
- Gayton JL. Etiology, prevalence, and treatment of dry eye disease.Clinical Ophthalmology 2009:3 405–412
- Miljanovic B, Dana R, Sullivan DA, Schaumberg DA. Impact of dry eye syndrome
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- Friedman NJ. Impact of dry eye disease and treatment on quality of life. Curr Opin Ophthalmol 2010;21: 310-6.
- Stapleton F; Alves M; Bunya VY, Jalbert I et al. TFOS DEWS II Epidemiology Report. Ocul Surf 2017;15: 334-65.
- Craig JP, Nichols KK, Akpek EK, Caffery B el al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report. Ocul Surf 2017; 15:276-83.
- Craig JP, Alves M, Wolffsohn JS, Downie LE, Efron N, Galor A, et al. TFOS Lifestyle Report Introduction: A Lifestyle Epidemic – Ocular Surface Disease. Ocul Surf. 2023; 28:304-9.

Figura 1: Ilustração esquemática do filme lacrimal e seus componentes: Uma fina camada de gordura (lipídica) produzida pelas glândulas meibomianas que estão ao longo das pálpebras), camada aquosa mais volumosa produzida pela glândula lacrimal (contém água, eletrólitos, elementos bactericidas, anticorpos, fatores de crescimento, mucina dissolvida) e a camada de mucina produzida por células que estão na superfície da conjuntiva (células caliciformes). (Adaptado de Gayton JL. Etiology, prevalence, and treatment of dry eye disease.Clinical Ophthalmology 2009:3 405–412.)